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 QUIM E SIDÓNIO: um somatório de 25 anos com a camisola do Varzim
Muitos, quase intocáveis, foram os atletas que, ao longo de décadas, deram ao Varzim o contributo do seu talento, da sua generosidade e da sua fidelidade sem quebras. Bem sabemos que os tempos eram outros , que não haviam constantes leilões de jogadores e muito menos "lei Bosman", eram apenas tempos em que existia e pesava um valor praticamente desaparecido que se identificava por amor à camisola.
Na década de 70, no espaço de três anos, dois atletas varzinistas despediram-se da actividade em outras tantas festas "de homenagem", que as havia e com motivo sério. Esses dois futebolistas chamavam-se Sidónio Bastos e Joaquim Marques da Rosa, o Sidónio e o Quim, no"seu" mundo da bola. Tais nomes, por extenso, ou abreviados, poucos dirão ou mesmo nada repercutirão nos mais jovens aficionados poveiros, mas, para que rapidamente se ajuíze da importância que tiveram enquanto atletas do Varzim, bastará dizer que, no conjunto, o Sidónio e o Quim envergaram a camisola do Clube durante 35- trinta e cinco! - anos. Sidónio Bastos, que se despediu a 3 de Junho de 1973, foi jogador, e muitas vezes com a braçadeira de "capitão", em 17 épocas consecutivas; Quim, cujo adeus à prática do futebol ocorreu a 25 de Agosto de 1976, esteve em campo com a camisola alvi-negra durante 18 anos.
"Brio profissional, honestidades e correcção" foi a síntese do prof. Rogério Viana para definir Sidónio como futebolista, no discurso oficial da sua festa de despedida, realizada no Estádio poveiro, com a participação, num torneio, das equipas do Salgueiros, do Fafe, do Famalicão e do próprio Varzim. Salientada, ainda, a circunstância de ser Sidónio, na altura o treinador varzinista, em prolongamento de uma exemplar actividade como jogador.
Quim afirmou-se como outra, e enorme, figura de referência varzinista, com muitos dos melhores anos da sua vida ao serviço do futebol e do
clube poveiro. Menino-pescador, Joaquim Marques da Rosa, o "Quim", fez-se futebolista e ídolo da Póvoa, defendendo a camisola alvi-negra durante dezoito anos: dos dezasseis aos trinta e quatro. "A sua carreira pautou-se sempre por uma dedicação fervorosa à camisola que envergou e pelo respeito que sempre soube manter por todos quantos, no campo desportivo, teve por opositores, o que lhe granjeou admiração e amizades onde outros só alcançaram animosidades" - lias-se num folheto distribuído pela Comissão encarregue da festa de homenagem e despedida, consubstanciada num "quadrangular" a que deram a sua colaboração as equipas principais do Rio Aves, do Gil Vicente e do Leixões. Matosinhenses e poveiros ficaram empatados no jogo da "final", sucedendo-se uma cena bonita: Quim entregou a taça "José Monteiro Reina" (sócio-fundador do Varzim) ao "capitão" do Leixões, Adriano, mas, por decisão de Joaquim Meirim, técnico matosinhense, o troféu passou, através do filho homenageado, para as mão de Leopoldo, "capitão" varzinista.
Na carreira de Quim, permaneceria a mágoa de nunca ter sido internacional "A". Ficou-se por suplente na selecção "B", num jogo em que Portugal perdeu, em Córdova, diante da Espanha, por 0-3. "Naqueles tempos, aquilo era só para grandes vedetas". O desabafo de Quim, anos mais tarde.
Na época (1976/77) em que Joaquim Marques da Rosa se despediu da actividade de futebolista, três jogadores varzinistas - facto inédito na história do clube - foram chamados aos trabalhos das selecções nacionais: Fonseca (titular na selecção "A", vitória sobre a Dinamarca por 1-0, no Estádio da Luz, na fase de qualificação para o "Mundial"), Festas (titular na Selecção de Esperanças, jogo e vitória por 2-1 no Luxemburgo) e João (convcado para os treinos da Selecção de Esperanças).
ANDRÉ, o caxineiro: um ano "mais novo" do que o "seu" Varzim
Houve um tempo em que um certo André mandava, e com senhoria, no meio-campo do Varzim. Não muito alto - cento e setenta e um centímetros exactos -, mas entroncado, peitudo, corria o campo todo e dava-se por inteiro à refrega, com raça inexcedível, roubando bolas, fazendo passes, desdobrando-se em acções defensivas e ofensivas. Era um protagonista, dava nas vistas - e tanto, tão repetidamente, que suscitaria cobiças e levantaria para mais altos voos. No fim da temporada de 1983/84, depois de ter contribuído para uma boa classificação (oitavo lugar) da equipa poveira no Campeonato Nacional, transferiu-se para o F.C. Porto, iniciando um novo capítulo - que seria brilhante - da sua carreira de profissional de futebol.
No Varzim e na gente da Póvoa, André deixou saudades. Ele não era da terra, tinha nascido perto, nas Caxinas, Vila do Conde, e começou por vestir, nos infantis, a camisola do Rio Ave, mas a qualidade do seu futebol, o seu espírito combativo, o seu sentido de jogo colectivo iriam provocar a viagem, curta em distância mas enorme em significado, para o Varzim. Com 17 anos de idade, era ainda júnior mas, já, com estatuto de profissional. Problemas de "verbas" provocaram uma ruptura, esteve uma época sem jogar, ingressão no Ribeirão, voltou ao Varzim e ficou. Por uns anos.
Sério, pundonoroso, de uma simplicidade convicta, amigo de conquista fácil para os que da amizade têm o melhor entendimento, André entregaria parte do coração à Póvoa e ao seu mais representativo clube. Fez-se, tanto quanto possível, poveiro. Afinal, o mar, seu cenário inicial de trabalho e ganha-pão, continuava ali ao lado.
Nascido em véspera de Natal - 24 de Dezembro de 1957 -, António dos Santos Ferreira André daria, aos 27 anos de idade, um salto qualitativo, profissionalmente falando, com outra viagem curta, que o levaria ao Porto e ao clube das Antas. Fez a sua primeira épca com a camisola azul-branca em 1984/85, sob o comando de Artur Jorge. O jogo de estria foi, log, de cariz europeu, ainda que a nível particular: integrou a equipa dos "dragões" que, no Estádio das Antas, a 8 de Agosto de 1984, em desafio de pré-temporada, defrontou e derrotou o Metz, de França, por três bolas a zero. Foi, de imediato, campeão nacional (participando em 18 jogos e marcando dois golos). Pouco mais de um ano decorrido, a 18 de Setembro de 1985, teria a sua primeira experiência oficial europeia, defrontando e vencendo o Ajx (2-0) na Taça dos Campeões. E seria bi-campeão nacional. Por junto, esteve em seis títulos nacionais e duas "Taças" de Portugal, foi campeão da Europa de clubes, ganhou a Supertaça Europeia e a Taça Intercontinental (título oficioso de campeão mundial de clubes).
Peça valiosa na prestigiada equipa portista, André seria chamado à Selecção Nacional: por dez vezes envergou a camisola das quinas. Em todos estes triunfos bateu o coração de um varzinista e de um poveiro adoptivo.
A carreira de André, como futebolista, terminou aos 35 anos de idade, na temporada de 1994/95. Deixando o jogo activo, não abandonou, porém o futebol: André tinha muito que ensinar e fez-se treinador.
No dia 17 de Fevereiro de 1997, o Varzim Sport Clube deslocou-se ao Estádio das Antas para defrontar o F.C. Porto, em jogo a contar para a
Taça de Portugal. António André, técnico-adjunto de António Oliveira no grupo de trabalho "azul-branco", viu em campo defrontarem-se dois amores da sua vida de futebolista e, numa tarde, reviveu a sua própria história. Uma história que seria enriquecida três meses depois, ao ver o seu nome inscrito na conquista do tricampeonato pelos "dragões".
Homem do mar que, tranquilamente, regressou às raízes - que também as há nas águas -, António André tem dobradas razões para se lembrar do tempo em que vestiu a camisola poveira: nascido num 24 de Dezembro (de 1957), cada aniversário seu precede de um dia o aniversário do Varzim Sport Club, deitado ao mundo a 25 de Dezembro (de 1915). "Sou mais novo do que o Varzim quarenta e dois anos e um dia" - poderá, sempre, dizer André.
RUI BARROS: um "europeu" na Póvoa
No dia 13 de Setembro de 1987, em jogo a contar para a 4ª. jornada do "Nacional", o Varzim Sport Clube, treinado por Henrique Calisto, recebeu no seu estádio o F.C. Porto, comandado por Tomislav Ivic. O campeonato estava, ainda, no adro e o embate, como tantos da lista de confrontos de poveiros e portistas, prometia espectáculo e resultado indeciso.
Em crónica desse jogo, constante de uma publicação posterior, relativa à história do CFP, poderia ler-se: "O Varzim não prometia facilidades e nunca as deu, ao longo de noventa minutos de refrega cuja realidade esbateu quaisquer dúvidas, se é que alguém as tinha: David e Golias só no papel, em teoria; na prática, dois adversários convictos da astúcia e das forças próprias, das armas e dos quereres a utilizar na decisão da peleja. (...) Rui Barros, o mesmo que andara, com o Varzim, no seu aprendizado de futura vedeta, começara por dar o aviso, alegre e solene, logo ao terceiro minuto de jogo, cabeceando ao lado no seguimento a um cruzamento de Madjer. A resposta varzinista pessoalizou-se em Vata, num raid que Inácio se viu compelido a travar em placagem de última instânicia. Lufemba e Miranda preocupavam, igualmente, os portistas, e aí estavam Celso e João Pinto a impor a ordem".
O extracto justifica-se pelo exposto, com algumas referência que encontrarão eco em muitos varzinistas, que nem terão que ser, necessariamente, da velha guarda. Treze anos volvidos (à data de sáida deste site), Miranda ainda joga e é valor proeminente; João Pinto e Ruibarros, do lado portista, já, abandonaram a actividade, Inácio e Madjer fizeram-se treinadores. Vata, ao que parece, anda lá para os orientes; de Lufemba perdeu o cronista o rasto.
Aquele Varzim-F.C.Porto merece, ainda, algumas considerações. A nível mais profundo, inscreveu-se numa temporada que não foi feliz para o Varzim, que, com 30 pontos, se classificaria na 17ª. posição, entre 20 concorrentes - tinha havido um inédito e absurdo alargamento de vida curta - e seria despromovido, juntamente com o Rio Ave, o Salgueiros e o Sporting da Covilhã; emtermos restrictos, permite a evocação ne Miranda e de Rui Barros, o primeiro por motivos óbvios, o segundo porque foi, também ele, anos antes, jogador em grande destaque ao serviço do Varzim.
A proeminência atingida por Rui Barros no futebol português e europeu enraíza-se num percurso tão diversificado como invulgarmente brilhante: quando chegou às Antas, tinha apenas 17 anos e já havia vestido as camisolas do Aliados de Lordelo, o clube da sua terra, do Rebordosa e do Paços de Ferreira; no F.C. Porto foi campeão nacional de juniores e prenunciou carreira de êxito, mas seria, logo a seguir, a pretexto de fazer "rodagem", emprestado ao Sporting da Covilhã , onde ficou uma época, tomando, então, o rumo da Póvoa, para defender durante duas temporadas o emblema varzinista e ajudar à conquista do título de campeão da Zona Norte da II Divisão; voltaria ao F.C. Porto, conquistaria glórias várias, seria chamado à Selecção das quinas, entraria no circuito europeu e conquistaria novos louros jogando na Juventus (Itália), no Mónaco e no Marselha (França); na época de 1994/95, regressou às Antas e quiseram os fados que, no dia 11 de Fevereiro de 1997, reencontrasse, em campo, num jogo da "Taça", o Varzim ... e Miranda.
Curiosamente - fica sempre este advérbio -, no jogo, atrás referido, do Campeonato de 1987/88, Rui Barros fixou o resultado, ao apontar o segundo golo do Porto.
Recordando a sua passagem pelo Covilhã e pelo Varzim, contou Rui Barros (revista "Dragões" de Outubro de 1987): "Na Segunda Divisão Nacional, arranjei arcaboiço. Era muito duro, joguei em muitos campos pelados. Havia um pressing constante. Às vezes, parecia mais porrada do que futebol. Estive dois anos na Segunda e um na Primeira Divisão. No primeiro ano em que estive no Varzim, vi o que era a Zona Norte. Há equipas muito fortes, quando não se luta pelo título corre-se o risco de descer (...). Por isso, acho que benificiei muito com a minha passagem pelo Covilhã e pelo Varzim".
Na mesma revista, Jaime Pacheco opinava sobre Rui Barros, elogiando a sua (ainda) curta carreita: "Basta lembrar o que tem feito por onde tem actuado. Deixou bem vincada a sua grande classe, como jogador e como homem. Digo isto não só pelo que conheço dela mas, também, pelo que tenho ouvido da boca de tanta gente da Covilhã e da Póvoa de Varzim".
A "marca" do Varzim está, indelével, no pequeno-grande jogador. Na crónica do jornal "O Jogo" de 12 de Fevereiro de 1997, havia a seguinte referência ao trabalho de Rui Barros: "Craque que passou pelos grandes palcos da Europa, respeitou o Varzim como se da melhor equipa do mundo se tratasse...".
Digna e meritória, a história do Varzim Sport Club foi e continua a ser feita por muita gente. Rui Barros, varzinista por dois anos, ajudou a fazê-la.