Momentos de glória

 

Meio século pelo Desporto com passagem de testemunho

As "Bodas de Ouro"

 

Longo caminho, curto caminho. Em 1965, o Varzim Sport Club comemorava as suas "Bodas de Ouro", correspondentes a 50 anos de existência, e podia dizer-se, com igual propriedade: tanto caminho já andado, tanto caminho ainda a percorrer! A vida de uma colectividade define-se pela vida dos homens que, ao longo dos tempos, corporizam o seu destino. Vão partindo os homens - a colectividdade fica. Chega, outros homens -e a colectividade avança.

As solenes celebrações do cinquentenário do Varzim constituíram, de algum modo um cerimonial simbólico de "passagem de testemunho": numa data marcante como a que se assinalava, a presença de alguns fundadores era o sinal vivo do elo original, primeiro de uma cadeia ininterrupta de gerações até chegar à "de então", a que representava um tempo e um clube nesse mesmo tempo. O simbolismo decorria do significado intrínseco da efeméride: medindo a vida dos acontecimentos e das coisas pela própria vida, o homem enfatiza, dramatiza e extrai equivalências. Meio século é uma data incontornável. Não deixou o Varzim, elementarmente, de procurar o maior luzimento possível para as comemorações das suas "Bodas de Ouro". E ao clube associou-se, como era inevitável, em alegria participativa, a gente poveira. E houve de tudo no programa, desde a missa na Matriz até à sessão de encerramento com alargado naipe de convidados, passando por uma exposição retroespectiva na sede e pela representação, no Teatro Garret, de uma "revista poveira", em dois actos e 10 quadros, interpretada por "artistas" da terra, da autoria de José de Azevedo e musicada por António Marta e cujo título não deixava dúvidas sobre a integração na festa: "Quanto mais velho... melhor!".

O cariz simbólico da comemoração seria sublinhado por actos concretos, na sessão solene também realizada no Teatro Garret, a 29 de Janeiro de 1966: a nível interno, um grupo de associados, com Manuel Litos à frente, fez entrega ao Varzim de uma nova bandeira, um soberbo estandarte de seda com bordados a ouro; em demonstração de reconhecimento externo pela obra do Clube, a Câmara Municipal concedeu ao Varzim a Medalha de Reconhecimento Poveiro e o Ministério da Educação Nacional, por intermédio do Delegado Geral de Desporto, dr. Armando Rocha, a Medalha dos Bons Serviços Desportivos. Era, então, presidente da Direcção uma velha glória varzinista, Alípio de Oliveira, enquanto à Assembleia Geral presidia o dr. João Bettencourt Sardinha.

A Federação Portuguesa de Futebol, várias Associações, diferentes autoridades e muitos clubes fizeram-se representar na cerimónia das comemorações, à qual chegaram solidárias mensagens das Casas dos Poveiros do Rio de Janeiro e de Moçambique e em que foi orador convidado o dr. Paulo Pombo, presidente do F.C. Porto e um dos carismáticos dirigentes desportivos da época, que subordinou um vibrante discurso ao tema mens sana in corpore sano e "viajou" da Grécia até ao presente.

Em dado passo da sua palestra, na definição do que considerava como a "fisionomia espiritual" de uma colectividade, diria o dr. Paulo Pombo:

"Tenho, de mim para comigo, esta conclusão: talvez não haja em Portugal outro clube desportivo que tanto se identifique animicamente com a sua própria terra como o Varzim Sport Club. A sua fisionomia espiritual é a própria fisionomia espiritual desta Póvoa do Mar. Trabalho abnegado e fecundo. Um sentimento inato de justiça. Um grande respeito pelos princípios morais. Uma grande consciência do próprio valor, mas ocultada sempre por uma grande - quase exagerada - modéstia. Uma profunda fraternidade entre os seus membros. Um por todos e todos por um. Ala! Ala Arriba! A resignação na derrota e na adversidade, mas com uma fé perpetuamente renovada nas vitórias. O sentimento completo daqueles versos de Fernando Pessoa: 'Deus ao mar o perigo e o abysmo deu / Mas nelle é que espalhou o céu'".

Na sequência de tal homenagem ao Varzim, extensiva à Póvoa e´à sua gente, o dr. Paulo Pombo recordou Eça de Queiroz e um célebre polémica com Pinheiro Chagas em que o genial criador do conde de Abranhos deixou cair uma frase tão irónica como mortífera: "Voçê é um poeta, um orador, um lutador; eu sou apenas um pobre homem da Póvoa de Varzim".

Foram, também, muitos "pobres homens da Póvoa de Varzim" que criaram e fizeram chegar o Varzim Sport Club ao dia histórico do seu cinquentenário, data-charneira na passagem para o futuro.

 

***

 

Não podia faltar, na festa das "Bodas de Ouro", um jogo de futebol. E houve jogo. Com "pinta", aliás, de internacional: de um lado, o Varzim; do outro, o Celta de Vigo. Em disputa, a Taça "Cinquentenário".

Foi movimentado, espectacular, correcto e fértil em golos o confronto de poveiros e galegos. No final o resultado cifrava-se num chorudo empate a quatro bolas, depois de o Varzim ter ido para o intervalo a ganhar por 2-0 e, já no segundo tempo, ter chegado ao 4-2. A reacção final dos celtiñas levou-os à igualdade e à taça "Cinquentenário", por deferência e desportivismo da Direcção poveira.

Manuel José, Aleixo e Vítor Silva (2) marcaram os golos do Varzim, num jogo dirigido por Aniceto Nogueira e perante boa assistência. As equipas apresentaram os seguintes jogadores:

Varzim - Benje; Fernando Ferreira, Quim, Salvador e Sidónio; Sousa e Aleixo; Vítor Silva, Manuel José (Morado), Valdir e Rogério.

Celta de Vigo - Ibanhue; Céspedes, Las Heras (Manolo), e Herminio; Costas (Viñas) e Ribon (Roberto); Lito, Silvestre, Abel, Rivera e Suro II (Tellez)

 

Medalha de Mérito Desportivo na passagem do 75º aniversário

 

Em 1991. o Varzim Sport Club voltou a estar em festa grande com os eventos comemorativos das suas "Bodas de Diamante", que tiveram o ponto mais alto num jantar realizado no Salão Nobre do Casino e reuniu em convívio de fervor clubista cerca de duas centenas e meia de associados. Na cerimónia, presidida por Roberto Carneiro, ministro da Educação, registoui-se, entre muitos convidados, entidades oficiais e desportivas, a presença de Carlos da Ressurreição, secretário de Estado para os Assuntos Parlamentares, Manuel Vaz, presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, Adriano Pinto, Presidente da Associação de Futebol do Porto, Manuel Puga, delegado no norte da Direcção-Geral de Desportos, e Jorge Nuno Pinto da Costa, presidente do F.C. Porto.

Ao longo do jantar, foram entregues emblemas de ouro e de prata a sócios com mais de 50 e 25 anos de filiação clubista ininterrupta e distribuiram-se os troféus "Lobo do Mar" a várias figuras que ao longo do ano transacto se tinham destacado ao serviço do clube.

A série de discursos abriu com a intervenção de Avelino Gomes do Monte, presidente da Direcção varzinista, que histouriou a vida do Varzim e, num momento de menor projecção desportiva do clube, deixou uma palavra de confiança no futuro.

Orador seguinte, o presidente do F.C. Porto diria, designadamente: "Um pai sente-se feliz com a felicidade dos filhos e o F.C. Porto não se pode esquecer de que o Varzim é a sua filial número um. Se o Varzim - neste momento que não é de euforia desportiva - tem junto de si tantos e tão bons amigos, o que será quando chegar o momento de glória, o tal momento da subida? Terá estes e muitos mais".

O ministro da Educação afirmaria, por seu turno: "Os 75 anos do Varzim não é um acontecimento local ou regional, é uma festa nacional. É este o significado da presença dos membros do Governo e do Ministério da tutela do desporto". Seguidamente, Roberto Carneiro colocaria na bandeira do Varzim a "Medalha de Mérito Desportivo" oficialmente atribuída ao clube poveiro.

Lídio Marques, presidente da Assembleia Geral varzinista, encerraria a sessão com palavras de agradecimento amplo e lançaria, secundado pelos presentes, o grito tradicional poveiro: "Ala Arriba!".

Vinha aí mais futuro, com outros momentos de felicidade para o Varzim Sport Club.

 

Medalha de Ouro

Proposta

 

 

Cumprindo o propósito, já tradição, de homenagear no Dia da Cidade, individualidades ou entidades que, pela saliência ou distinção no exercício da sua actividade, merecem ser apontados como exemplo de participação cívica ao serviço do desenvolvimento do concelho, proponho:

Que a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim atribua ao Varzim Sport Club a Medalha de Ouro de Reconhecimento Poveiro assinalando, além de uma longa história ao serviço do desporto e da valorização social da Juventude, a reascensão do Clube à I Divisão Nacional de Futebol, que vai acentuar ainda mais a importância da sua actividade ao serviço da promoção e desenvolvimento turístico-económico da Póvoa de Varzim.

 

Póvoa de Varzim, 05 de Maio de 1997

 

O Presidente da Câmara, José Macedo Veira

 

 

Breve história de um galardão que é reconhecimento público - Troféu "Lobos do Mar"

 

Tudo começou na temporada de 1986/97, quando a Direcção do Varzim Sport Club, presidida por Lídio Marques, apresentou a proposta de criação de um troféu que, anualmente, homenageasse, de tal dando público testemunho, as personalidades que mais se destacassem ao serviço do clube. Aprovada por unanimidade pelo Conselho Varzinista, a proposta passou da letra aos factos: logo no ano seguinte, e no decurso do jantar comemorativo do 72º- aniversário do Varzim, exemplares do troféu "Lobos do Mar" foram entregues a vários varzinistas cuja acção, no ano anterior, em diferentes esferas de actividade, se considerou relevante.

Prémio do clube aos que, "com o seu esforço" inteligência e dedicação" contribuiram para a dignificação e prestígio do Varzim e, por extensão, para o engrandecimento da própria cidade da Póvoa, o troféu "Lobo do Mar" galardoou, no cerimonial pioneiro, Manuel Amorim Sousa Ferreira ("sócio residente do ano"), dr. Vasco da Graça Oliveira ("sócio-emigrante do ano", a viver em Angola e filho do fundador e carismático Alípio Oliveira), comendador Joaquim Dias Cardoso, director-presidente da empresa SuperConfex Maconde ("figura do ano"), Paulo Oliveira, futebolista internacional júnior ("atleta amador do ano), Manuel António Milhazes, "Lito" ("atleta profissional do ano"), Henrique Calisto ("treinador do ano") e Lídio Marques, presidente da Direcção ("dirigente do ano")

Explicação múltipla

E, agora, o nome do troféu: por quê "Lobos do Mar"? A explicação é dada na edição de 28 de Janeiro de 1988 do jornal "A Voz da Póvoa". E, por junto, reza assim:

Foram cárias as propostas para a denominação dos prémios. Vingou o "Troféu Lobos do Mar".

- Lobos do Mar identifica-se não só com os seus pescadores como com a própria Póvoa;

- Lobos do Mar lembra de imediato heróis como Cego do Maio, Patrão Sérgio, Patrão Lagoa, Mestre João Lito, Tio Tomás Cavalheira e tantos outros intrépidos pescadores poveiros que, desprezando a própria vida, deram o melhor do seu esforço e valentia para salvar companheiros das garras da morte;

- Lobos do Mar é um termo nacional, símbolo de bravura, altruísmo, abnegação e dádiva total, identificado com a Póvoa piscatória e usado pelos maiores prosadores do nosso país. Escritores e poetas. Filósofos e pensadores.

- Lobos do Mar é uma imagem que retrata com rara fidelidade o coração magnânimo, o gigante com alma de criança, o obediente e dócil pescador que, embora de braços hercúleos e músculos de aço, sulca as ondas alterosas e esquece a tormenta para trazer a salvo o náufrago desconhecido;

-Lobos do Mar é sinónimo de força, de raça, de querer, de ambição e de tenacidade.

 

****

 

No mesmo ano (1987) em que foram instituídos os troféus "Lobo do Mar", conheceu o Varzim Sport Club outras inovações e transformações. A saber: a colectividade foi dotada de novos Estatuos; foi criado o Conselho Varzinista; foi criada a comssão de Obras (que deu início à construção da bancada no Topo Sul).

Um clube em movimento e em mudança. Para mais e melhor.